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PORTUGAL
Bisneto de um industrial, Filipe Botto tem 38 anos e é o CEO da Yonest, uma empresa com pouco menos de 20 empregados que produz iogurte grego numa pequena fábrica, a 50 quilômetros de Lisboa. O negócio nasceu em 2013, quando Filipe colocou um ponto final na promissora carreira de analista de investimentos num grande banco português para arriscar-se na empreitada de produzir alimentos diferenciados, para um mercado sofisticado. A Yonest começa agora a entrar nas redes de supermercados e Filipe, que desde o ano passado já exporta para Angola, está otimista – prepara o aumento de sua capacidade de produção, já pensando no próximo passo: a Espanha.
Filipe nem terminara o curso de Administração na Nova School of Business and Economics, a mais prestigiada instituição do ramo em Portugal, quando recebeu o convite para trabalhar num banco. Foi consultor financeiro e trabalhou em vários projetos de parcerias público-privadas, entre eles a do estádio do Benfica, para o qual ajudou a desenhar o modelo financeiro.
“Nos quatro anos que trabalhei no banco, desenvolvi meu raciocínio analítico-financeiro, que é essencial para quem vai empreender”.
Aos 26 anos, Filipe foi para Londres. Não pelo Erasmus (EuRopean Community Action Scheme for the Mobility of University Students, criado pela União Europeia em 1987, mas que ganhou impulso mais tarde), mas a convite do mesmo banco. A experiência o marcou profundamente:
Portugal era um país fechado e pequeno. Aprendi a viver em inglês e a pensar o mercado globalmente. Convivi com estudantes de muitos países e constatei que nesses locais, os mercados, inclusive o de alimentação, eram mais dinâmicos e interessantes. Os conceitos eram mais simples e a busca pela qualidade, uma constante. Enquanto num restaurante português o menu tem quatro, cinco, dez páginas, nos restaurantes de Londres tem uma página apenas.
Em 2008, Filipe passou a fazer o MBA na Insead, uma escola de negócios que pretende ser mundial. Passou seis meses no campus de Singapura e outro tanto no de Fontainebleu, perto de Paris. O convívio com alunos de 80 nacionalidades também deixou lembranças. E a certeza de que é possível desenvolver um negócio com mercado mundial a partir de Portugal.
“Temos pouco planeamento, mas sabemos desenrascar as coisas. Portugal sempre fez muito com poucos recursos”.
Voltou para casa em 2010, ainda vinculado ao banco e passou a cuidar da área de private equity para a África. O projeto não decolou e no tempo livre cada vez maior, Filipe começou a pensar num negócio diferente: iogurte.
“Cheguei a tentar a reciclagem, mas é uma área complicada. Naquele momento, boa parte dos alimentos estavam a se reinventar – cápsulas de café, sorvetes mais sofisticados, batatas fritas, águas. Achei que poderia fabricar e vender um iogurte melhor.”
Ainda no banco, em 2011, ele desenvolveu o plano de negócios e começou a fuçar nos cadernos de receitas da família, em busca de antigas fórmulas:
“No fim das contas, iogurte é leite aquecido, a que se adiciona outro iogurte. “
Por essa época, começava a surgir o movimento das startups em Portugal. E Filipe se deu conta de que ali havia espaço para seu projeto também, embora o foco maior fosse a área digital.
A Startup Lisboa nasceu do trabalho da socióloga Graça Fonseca, que foi vereadora com os pelouros Economia, Inovação, Educação e Reforma Administrativa, entre 2009 e 2015. Quando o presidente da Câmara Antonio Costa tornou-se primeiro-ministro, assumiu a pasta de Modernização Administrativa.
Com o orçamento participativo, que destina uma pequena parcela dos recursos a projetos de escolha dos cidadãos, surgiu o projeto de uma incubadora, de um acordo entre o Montepio e a Câmara Municipal. O IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovacão ou Agência para a Competitividade e Inovação. Uma associação sem fins lucratos para dar suporte a jovens que pudessem criar projetos que ambicionassem crescer. Na época, o desemprego girava em torno dos 14, 15% e a disposição do novo governo foi a de criar um polo gerador de notícias positivas. E o que melhor do que uma incubadora de novas empresas?
Mas era mal visto falhar em Portugal – embora os manuais mais modernos de gestão reconheçam o erro e o fracasso como parte do aprendizado, como algo inevitável.
A primeira empresa industrial na Startup Lisboa foi a Yonest.
Uniplaces – agência de vagas para estudantes.
Filipe saiu do banco, com uma licença não-remunerada, juntou a poupança feita ao longo do tempo com recursos da família, conquistou um sócio e entrou no negócio, que começou no dia primeiro de setembro de 2012.
Instalou-se na rua da Prata, 41, que define como “uma bolha de otimismo” naqueles tempos sombrios.
João Vasconcelos era o CEO da Startup Lisboa. Hoje Vasconcelos coordena o Conselho, um thik tank que reúne 40 dos mais relevantes CEOs portugueses para discutir as novas dinâmicas do setor industrial e da economia portuguesa. Teve curta passagem pelo Ministério da Economia.
Trouxe o Web Summit para Portugal.
Até 2013, Filipe desenvolveu as receitas, a marca e o conceito. Em dezembro de 2013 começou a operar mesmo.
Diz que o potencial de Portugal é grande em razão do baixo custo, de uma quantidade de jovens bem formados, além de segurança e qualidade de vida. E fica perto da Europa, a preços de periferia.
Em 2015, Lisboa foi nomeada cidade empreendedora da Europa. Lisboa recebeu em Bruxelas, hoje dia 25 de junho, a distinção de Cidade Empreendedora Europeia, que premeia as melhores estratégias regionais para a promoção do empreendedorismo e da inovação junto das pequenas e médias empresas.
Na 107.ª reunião plenária do Comité das Regiões da UE (CR), o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa (PT-PSE), juntamente com representantes da Irlanda do Norte (Reino Unido) e de Valência (Espanha), obteve de Ramón Luis Valcárcel Siso, presidente do CR, o galardão da Cidade Empreendedora Europeia pela estratégia desenvolvida por Lisboa para fomentar o empreendedorismo e executar políticas europeias fundamentais como a chamada Lei das Pequenas Empresas (Small Business Act para a Europa – SBA) e a Estratégia Europa 2020 para o crescimento e o emprego.
O júri, composto por representantes das instituições europeias e de associações empresariais, reconheceu especificamente o impacto dos esforços realizados pela capital portuguesa para conquistar uma posição no Atlântico como polo de negócios e cidade de startups, tirando partido da sua situação geográfica enquanto porta de entrada para as Américas, África e a UE.
Ao chegar ao governo, pilotando a Geringonça, uma improvável aliança entre o Partido Socialista, o Partido Comunista e os verdes, Antonio Costa transformou o programa das startups num dos pilares de sua administração. Graça Fonseca tornou-se secretária de Estado, João Vasconcelos, secretário da Indústria e a Web Summit trocou a Irlanda por Portugal.
Web Summit is a technology conference held annually since 2009. The company was founded by Paddy Cosgrave, David Kelly and Daire Hickey. The topic of the conference is centered on internet technology and attendees range from Fortune 500 companies to smaller tech companies. This contains a mix of CEOs and founders of tech start ups together with a range of people from across the global technology industry, as well as related industries.
Web Summit runs events throughout the world including f.ounders,[1] RISE Conference in Hong Kong,[2] Collision in New Orleans,[3] SURGE in Bangalore and MoneyConf in Dublin.
For the first five years the event was held in Dublin, Ireland. In September 2015 Paddy Cosgrave, Web Summit co-founder and CEO, announced that Web Summit would be held in Lisbon starting in 2016.
“Tudo isso criou uma rede de segurança e ajudou a mudar a cultura. Os jovens, hoje, saem da universidade e já não pensam numa carreira sólida dentro de uma única empresa. Muitos arriscam empreender. Mesmo seus pais já não os induzem a serem médicos, engenheiros ou advogados.”
Algumas fundações começam a fornecer o combustível indispensável para quem pretende abrir um negócio: capital de risco. É o caso da Portugal Ventures. A Portugal Ventures lançou um novo fundo de 10 milhões de euros para investir em startups portuguesas de base tecnológica nas áreas de digital, hardware e ciências da vida.O Fundo de Capital de Risco Portugal Global Ventures II vai permitir à sociedade pública de capital de risco continuar a investir em empresas com menos de três anos de atividade. Este novo veículo de investimento permitirá continuar a investir em empreendedores que ambicionam solucionar problemas com modelos de negócio e tecnologias disruptivas. A nossa ambição é trabalhar lado a lado com estes empreendedores, criando líderes de mercado globais”, afirma Celso Guedes de Carvalho, presidente executivo da Portugal Ventures, em comunicado de outubro de 2017.
“Dá um gozo gigantesco criar um negócio a partir de uma folha de papel. E é do prazer que nasce o êxito, embora o fracasso esteja sempre a rondar o empreendedor”.
O movimento das startups em Portugal surgiu em 2012, quando o cenário econômico era bem diferente. A troika aplicava o receituário neoliberal na risca e os níveis de desemprego eram elevados. Antonio Costa, hoje primeiro-ministro, presidia a Câmara Municipal de Lisboa e resolveu imprimir algum tipo de medida contracíclica. Tinha poucas possiilidades. Mas o orçamento participativo, que destina uns poucos milhões de euros da verba municipal para propostas aprovadas pelo público, deixou claro que havia interesse de muita gente na criação de uma incubadora de empresas no centro da cidade.
A administração procurou parceiros e só um banco respondeu – o Montepio, que cedeu um pequeno prédio na Baixa, região central deteriorada na época. Ali nasceu a Startup Lisboa, uma incubadora. Juridicamente, uma associação de direito privado, com o duplo objetivo: promover a renovação do unverso empresarial e ajudar a recuperar a Baixa, que depois das cinco da tarde, mais parecia uma área deserta.
A Startup Lisboa elegeu três áreas de atuação: comércio, turismo e tecnologia. Tem uma espécie de hostel para receber empreendedores de fora e um espaço no aeroporto de Lisboa, que ajudar a pagar as contas. Em pouco mais de cinco anos, o cenário econômico do país mudou e os dirigentes da instituição creditam parte dessa virada ao trabalho da própria Startup Lisboa.
Hoje, há mais de cem empresas incubadas. A transferência da Web Summitt, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo de Dublin para a capital portuguesa foi um passo importante.
Miguel Fontes, xx anos, sociólogo, CEO da Startup Lisboa, diz que a instituição oferece mentoria para os jovens empreendedores e busca criar uma rede de parceiros, estabelecendo contato com potenciais investidores. “Tudo isso ajudou a posicionar Lisbia como uma cidade aberta, criativa, inovadora”.
A digitalização torna a geografia irrelevante, embora as barreiras continuem a existir.
O país é destino do investimento. Temos talento, fator crítico em qualquer sociedade contemporânea. Isso é resultado de 25 anos de políticas públicas consistentes na área de ensino superior, ciência, inovação e tecnologia.
Antes, os produtos portugueses só competiam por preço. Mas os empreendedores, mesmo os tradicionais, se deram conta de que era preciso investir em pesquisa e desenvolvimento, design e marketing.
Festejavam o fato de móveis desenhados em outros países serem fabricados no interior do país.
Parte da mudança de mentalidade tem a ver ainda com a presença crescente de jovens estudantes nas universidades portuguesas e no programa Erasmus, que estimula o intercâmbio estudantil na União Europeia.
O desafio é não tirar o pé do acelerador. E numa economia pouco capitalizada como a nossa, isso exige atrair investimento estrangeiro de longo prazo.
A cereja do bolo é o fato de sermos uma sociedade aberta, inclusiva, menos racista e onde há qualidade de vida.
Numa visão desapaixonada, o turismo permite crescer e combater o desemprego rapidamente. Há milhares de portugueses com pouca qualificação profissional que só tem emprego graças ao turismo.
O Hub Criativo do Beato foi iniciativa do atual presidente da Câmara Municipal, agora no início do segundo mandato. Ele constatou que há um espaço pouco utilizado entre a estação de Santa Apolônia e estação Oriente, muito perto do centro da cidade. Um antigo distrito industrial em decadência. Ali estão as instalações de uma antiga fábrica de manutenção militar, que produzia alimento para as tropas das Forças Armadas. Com o fim da guerra colonial, o local perdeu sentido. São 35 mil metros quadrados de área construída, entre galpões e edifícios. Uma mini-cidade com dez mil metros quadrados destinados a startups, mas onde poderão se instalar as sedes digitais de grandes empresas internacionais e projetos ligados à economia criativa.
O Hub do Beato vai ser um equipamento vivo da cidade, com animação, programação cultural, etc. O grupo Superbock fará uma cervejaria artesanal.
Não vamos realocar o que já existe, mas somar valor.
Haverá ainda um espaço museológico do século XXI.
Startups – cervejas artesanais – Dois Corvos. Uniplaces, alojamento para estudantes.
Corretor ortográfico para códigos.
Carlos Braz Lopes, 62 anos, tinha um restaurante no Mercado de Santa Clara, junto à Feira da Ladra. Em 1987, resolveu recriar um bolo de chocolate que havia provado em Paris. A expêriencia não deu 100% certo, mas quem comeu o tal bolo gostou e ele passou a fabricá-los regularmente.
“Tinha gente que ao entrar no restaurante perguntava pelo bolo e pedia para guardar uma fatia.”
Formado em gestão de empresas, Carlos sempre teve uma vocação de empreendedor. Além do restaurante, abriu um curso de culinária e na loja, seguiu fazendo o tal bolo de chocolate. A quem perguntava se o bolo era bom, dava uma resposta exagerada: “O melhor do mundo...”
“As pessoas passaram a ir à loja atrás do bolo e não do curso”.
Finalmente, Carlos resolveu montar um pequeno café junto ao Mercado do Campolide e colocou o bolo no cardápio.
Uma matéria na revista Veja, que ele nem sabe quem escreveu inclui o bolo no roteiro de Lisboa e a frequência aumentou.
Numa viagem ao Brasil, uma jornalista acabou apresentando-o a sua futura sócia. Fecharam o negócio sem se conhecerem muito e tudo deu certo. A loja na rua Oscar Freire, em São Paulo mutiplicou-se em franquias em São Paulo, Rio, Brasília, Salvador até venderem a operação para uma empresa do setor. Hoje, há franquias na Austrália, Angola, Espanha, França Panamá e Macau. Já atuou nos Estados Unidos e deve voltar para lá.
Em Lisboa, Carlos produz 150 bolos por dia.
Sua trajetória serviu de exemplo para as startups, justamente por ter feito tudo à margem de mentores, receitas e fórmulas.
“Meu caso mostra que qualquer pessoa pode começar um negócio com pouco dinheiro”.
“Quando comecei, o cenário era outro. Parecia loucura pensar em abrir uma empresa para um nicho direcionado”.
Carlos diz que começaria um negócio hoje em dia, porque gosta do risco. “Tenho outros projetos. Mas a concorrência é maior...”
Ele diz que o pulo do gato foi o nome da loja – que, admite, mistura pretensão e ousadia em doses equivalentes.
Maria Miguel, economista e jornalista, 40 anos, dirige a Startup Portugal, uma organização sem fins lucrativos, criada há dois anos e que reune incubadoras, aceleeradoras e investidores, além de órgãos do governo. Instalada numa espécie de sotão no prédio do Ministério da Economia, a instituição pretende inspirar políticas públicas que atendam à mudança de comportamento da geração que está apostando nas startups.
“Em outros países, há muito mais tempo, os governos atentaram para essa necessidade. Portugal chegou agora. Queremos ajudar a implementar essas políticas, decodificando as medidas de apoio num canal digital, falando a língua dos empreendedores e também capaz de escutar as demandas da comunidade e explicar como criar políticas para ele junto ao governo”.
A Startup Portugal já armou uma rede com 150 incubadoras de norte a sul do país. Tem de tudo um pouco. Universidades, Câmaras Municipais, empresas.
Algumas iniciativas surpreendem pela ousadia. Como o Startup Voucher, que assegura 700 euros mensais – mais que o salário mínimo português – para os empreendedores no período de desenvolvimento da ideia. Ou o Vale de Incubação – cinco mil euros para ajudar a suportar os gastos de abertura de uma empresa e sua manutenção na primeira fase, em que não há faturamento, só gastos. Os dois programas demandam aprovaçao do projeto junto a uma incubadora e vínculo efetivo com esses mecanismos.
Outro campo de atuação é junto aos investidores, com uma oferta tentadora: para cada euro investido numa startup, o governo coloca outro tanto. O programa Semente oferece benefícios fiscais a familiares, amigos ou conhecidos dos novos empreendedores, isentando de imposto o valor aplicado no negócio.
“Sabemos que o primeiro dinheiro vem desse círculo muito próximo ao empreendedor”.
A Startup Portugal marca presença em grande parte dos eventos internacionais relacionados aos novos negócios. Só este ano, serão 25 missões internacionais. Grande parte delas, encabeçada pelas maiores autoridades portuguesas.
“É diferente a recepção a um novo empreendedor quando acompanhado pelo primeiro-ministro ou pelo ministro da Economia, como faremos agora em Londres. Essa diplomacia econômica dá mais credibilidade para as startups portuguesas.”
Há um fundo de co-investimento para o qual o orçamento português reservou 200 milhões de euros até 2020.
Há um protocolo de apoio às startups brasileiras e um acordo com a Fiesp e com a Startup Rio.
Os estrangeiros podem se candidatar a um visto permanente, caso abram uma startup em Portugal ou tragam para o país seu novo negócio. É o único na Europa.
As novas empresas falham mais quando sozinhas, daí a aposta nas incubadoras.
Duas características. Aposta ne tecnologia, que permite criar modelos de negócio inovadores, aumentando a escala e a rentabilidade sem vínculo com a base física do negócio e ambição global.
Maria acha que muito em breve as estatísticas refletirão a mudança. “Esse regresso de talento está a se feito. Antes não havia empregos interessantes, atraentes. Entre meus amigos, quase todos voltaram. Só um segue em Paris – virou professor”.
O próximo passo é a geração de unicórnios – empresas que valem acima de muitos milhões de euros. Não é uma bolha que vai acabar”.
