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PORTUGAL

Paulo Markun

5/11/20265 min read

A crise política que ameaça encerrar mais cedo o governo do primeiro-ministro de Portugal, António Costa, ,agora no próximo dia 15, caso a Câmara dos Deputados vote o projeto que restabelece a contagem de tempo de professores, que o governo da troika reduziu, tem um personagem-chave: o ministro das Finanças, Mário Centeno.

Bisneto de um presidente municipal, neto de dono de restaurante, filho de um bancário com uma funcionária dos Correios, Mário José Gomes de Freitas Centeno viveu até os 15 anos em Vila Real de Santo Antônio, porto fluvial hoje com 12 mil habitantes, no Algarve, sul de Portugal. Ali ganhou fama de comunista, por ter participado da chapa do PC ao grêmio estudantil. Proximidade e atuação que repetiria no Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa, onde formou-se com louvor em 1990, conquistando o mestrado em Matemática Aplicada três anos depois. Seu colega de ISEG, Sérgio Figueiredo, hoje diretor de informações do canal aberto Tvi, admite que ambos eram conhecidos como satélites do PCP e diz que "o catálogo de liberal aplicado a ele não funciona. Ele não fica refém da ideologia e gosta de pessoas.”

Casado com uma colega de escola, com quem tem três filhos, Centeno passou cinco anos em Harvard. Voltou com o doutorado, amigos entre grandes nomes da economia mundial e uma certeza pelo menos: "Por vezes, a macroeconomia esquece que do outro lado estão as pessoas”.

No Banco de Portugal, onde atuou no Departamento de Economia, foi preterido num concurso para diretor, supostamente, por ter criticado a política econômica do governo anterior. Deu aulas no ISEG e na Universidade Nova de Lisboa e publicou um livro sobre s o mercado de trabalho, em que critica o modelo português de regulamentação trabalhista por proteger os velhos, enquanto entrega os jovens a contratos por tempo determinado, sem qualquer proteção. A saída, especula, seria um contrato único, mais flexível, aliado ao seguro-desemprego.

Nas últimas eleições parlamentares, ele coordenou 12 colegas encarregados do diagnóstico macroeconômico socialista para as eleições e foi eleito deputado pelo PS. Também teve papel decisivo nas negociações que levaram ao acordo entre o Partido Socialista, que não havia conquistara a maioria com o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e os Verdes, assegurando a chegada de António Costa, ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa ao cargo de primeiro-ministro e o próprio Centeno para o comando das Finanças.

Há pouco mais de um ano, ele assumiu a presidência do Eurogrupo, o conselho dos ministros da Economia dos países da União Europeia e até agora parecia capaz de se equilibrar na corda bamba da sua dupla condição: articulador econômico da Europa e portador da chave do cofre português, num arranjo de governo nascido pela improvável e até agora bem sucedida parceria entre os socialistas e três partidos de esquerda – a chamada geringonça.

Na ocasião, o Partido Comunista Português fez questão de demarcar a distância entre os comunistas e o ministro em dupla função. Em nota oficial, o comitê central registrou que a eleição de Centeno não era positiva para os trabalhadores, nem para o povo português. Já o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, rendeu-se: “Era um patinho feio, para muitos, muito feio, há dois anos, e agora, de repente, é um cisne resplandecente”.

Equilibrando pratos como uma malabarista, Centeno pode comemorar a aprovação do Plano de Estabilidade que definiu a redução do défict público em 2018 para 0,7% do PIB (foi de 0,9% em 2017), meta que foi superada (o resultado oficial acabou sendo de 0,5%, patamar que a proposta inicial só previa atingir em 2012. No Eurogrupo, conseguiu festejar o acordo com a Grécia, que diminuiu o sufoco para o país que fez a lição de casa, como queriam os liberais. Há pouco, circulou a notícia, não confirmada, de que o ministro seria candidato a deputado pelo Partido Socialista a partir do círculo eleitoral de Faro.

Mas os problemas só cresceram. Nos últimos meses, as greves de trabalhadores se multiplicaram, afetando escolas, hospitais, trens e transportadores de combustível. França e Alemanha querem um orçamento comum para a zona do euro, mas há resistências. Como presidente do Eurogrupo, Centeno é a favor da proposta. António Costa diz que quer mais que apenas um orçamento comum – sonha com novos impostos europeus, entre eles, um voltado para os gigantes da internet, como Amazon. Para dentro e para fora, Centeno tem pedido paciência e perseverança.

No início do ano passado, balançou no cargo, depois de uma confusão envolvendo a entrega de declarações de renda dos novos dirigentes da Caixa Geral de Depósitos, um banco estatal, mas foi mantido pelo primeiro-ministro. Pouco antes, um pedido de ingressos para ele e o filho de 15 anos verem um jogo do Benfica, de que é torcedor fanático resultou num inquérito do Ministério Público, logo encerrado, diante do argumento de que o ministro precisa ter a segurança garantida em eventos do gênero e que não houve qualquer benefício indevido no episódio.

Às vezes, o problema foi o fogo amigo. Ao desmentir qualquer divergência, seu colega da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, tentou apagar qualquer divergência com uma frase que deliciou colunistas e adversários: "Em matéria de rigor orçamental, de crescimento e de sucesso das contas públicas, eu diria mesmo que no Governo somos todos Centeno”. A resposta foi cuidadosa: “Não somos todos Centeno, somos todos Adalberto.”

Centeno não facilitou a vida de Adalberto ao manter o pé no freio dos gastos. Adalberto é que saiu do governo e voltou a dar aulas. A confusão foi um prato cheio para os parceiros como Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, que ao jornal Público alertou: “não podemos deixar que, para que Mário Centeno possa brilhar, os serviços públicos fiquem às escuras”.

Exceção à regra da discrição foi a selfie que o próprio Centeno publicou no Twitter depois do reveillon de 2018 no Casino Estoril, sorrindo ao lado da socialite Lili Caneças. A ex-integrante de vários reallities shows, também publicou a foto. A legenda o classifica como o Cristiano Ronaldo das finanças, “um orgulho para Portugal”.

No Congresso do PS, Centeno só apareceu no encerramento, após de ter sido aplaudido e elogiado. A ele, o primeiro-ministro atribui o fim de um mito - o de que “em Portugal, é a direita que sabe governar a economia e as finanças públicas.” Os portugueses parecem satisfeitos com o ministro das Finanças. Pesquisa recente indica que 74,5% querem ele no cargo em um segundo governo do PS.

Sobre as críticas dos parceiros de esquerda na Geringonça, Centeno diz que “essa dicotomia existe mais na maneira como as pessoas a colocam do que na realidade”. Importante, assinala é o programa com que o PS disputou as eleições e que propunha conciliar austeridade e crescimento: “Não nos tornamos mais nem menos do que aquilo que estava nesse programa.”

Diante da estranha e oportunista aliança entre o PCP, o Bloco de Esquerda e os direitistas PSD e CDS em torno da restauração do tempo de contribuição dos professores, Centeno deixou de lado a diplomacia e disparou: "Os senhores deputados farão exatamente aquilo que a sua consciência considerar, mas de uma coisa, senhores deputados, não se livram, cinismo e demagogia é o que está nessa proposta."

Para o ministro a proposta viola o artigo 167 da Constituição portuguesa, que estabelece: "os grupos parlamentares e os grupos de cidadãos eleitores não podem apresentar projetos de lei, propostas de lei ou propostas de alteração que envolvam, no ano econômico em curso, aumento das despesa ou diminuição de receitas do Estado previstas no orçamento".

Segundo Centeno, o impacto seria de 240 milhões de euros por ano e faria virar pó os compromissos assumidos por Portugal junto ao Eurogrupo e à União Europeia.

A consequência veio na forma de ultimato do primeiro-ministro António Costa: se o projeto passar, ele pede demissão.