Na minha perspectiva
Na minha perspectiva – mais prática que teórica – jornalismo tem sim um potencial educativo, mas essa não é a regra do jogo. Expressão, aliás, que dá título a uma coletânea de artigos e textos de Claudio Abramo, um dos mais influentes jornalistas do século XX no Brasil.
O Brasil demorou a ter jornais. Enquanto a corte se manteve em Lisboa, tentativas de implantar gráficas foram simplesmente liquidadas. A chegada da corte que fugia de Napoleão mudou essa realidade – com ela vieram os tipos móveis utilizados pela Imprensa Régia.
O primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, surgiu em 10 de setembro de 1808 por ordem do imperador recém-chegado. Seu editor era um frade, Frei Tibúrcio José da Rocha e seu redator, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, o primeiro jornalista profissional do Brasil.
O conteúdo era, basicamente, comunicados oficiais. Publicava ainda informes sobre a política internacional, em especial, à realidade europeia diante dos conflitos napoleônicos e a instabilidade das colônias americanas da Espanha.
Os assuntos científicos não eram tema sistemático, mas o jornal chegou a publicar alguns artigos técnicos, por conta da trajetória do redator. Natural da Bahia, Manuel Guimarães tinha se diplomado em Matemática pela Universidade de Coimbra, fora aluno e professor da Academia Real de Marinha em Portugal e da mesma instituição no Rio de Janeiro. Tem várias obras de caráter científico, traduzira diversos manuais para as instituições ode lecionara e era poeta e político.
Em três edições de setembro de 1816, por exemplo, a Gazeta reproduziu o discurso iluminista feito por Georges Leopold Chrétien Cuvier (1769/1832) na instalação da Academia de Ciências de Paris, em 24 de abril daquele ano. Ao apresentar o estado da Europa em termos científicos e políticos. Cuvier fez uma apologia do valor da ciência para a humanidade, relacionando as descobertas e invenções mais recentes, como o desenvolvimento da astronomia e a invenção da máquina a vapor, e seu impacto na vida dos homens, no desenvolvimento do comércio e da indústria e também no equilíbrio de poder entre as nações.
Outras notícias publicadas pela Gazeta valorizavam o caráter prático do conhecimento científico, como, por exemplo, a tradução de um artigo do “Repertório de Artes, Manufaturas e Agricultura etc.” que explicava que, ao adicionar ácido fosfórico (encontrado na urina) na fórmula do sabão era possível usá-lo com água salgada.
O outro jornal brasileiro da época mais parecia um livro e era impresso em Londres. O Correio Braziliense, editado por Hipólito José da Costa, a partir de junho de 1808. Tratava de política, economia, ciências e artes e apresentava as principais notícias da Europa aos leitores do “Novo Império do Brasil.”
Hipólito e seu jornal defendiam, a união entre os dois reinos, pois temia que um Brasil independente pudesse se fragmentar. Mas o país deveria ter o status de Reino Unido, formando com Portugal um império luso-brasileiro. Era a favor da monarquia constitucional e gostava da racionalidade administrativa praticada nos Estados Unidos. Também preconizava o fim gradual da escravidão.
o regime escravista. Durante a República, os jornais refletiam as diferentes correntes políticas e ideológicas do país, mas a busca pelo lucro e a influência política muitas vezes foram priorizados em detrimento da educação e da informação.
Essa falta de compromisso com a educação e a informação não foi exclusiva do Brasil. Em muitos países, os jornais foram usados como instrumentos de propaganda política ou para atender interesses comerciais, deixando de lado a responsabilidade de educar a população.
Nos Estados Unidos, por exemplo, durante a guerra hispano-americana em 1898, os jornais americanos desempenharam um papel importante na propaganda do conflito e na criação de uma imagem de heróis nacionais. O jornalismo sensacionalista, conhecido como "yellow journalism", foi usado para criar uma atmosfera de patriotismo e justificar a intervenção americana em Cuba.
No Reino Unido, durante o século XIX, os jornais se dividiram em partidários e neutros, muitas vezes comprometendo a objetividade e a educação do público. A falta de imparcialidade levou o governo britânico a criar leis de liberdade de imprensa para garantir que a educação e a informação fossem prioritárias nos jornais.
Apesar dos avanços nas práticas jornalísticas nas últimas décadas, ainda hoje muitos jornais têm outros interesses além da educação e da informação. Por exemplo, a mídia sensacionalista ainda é comum em muitos países, priorizando manchetes sensacionalistas em detrimento da educação e da informação.
Num dos depoimentos que compõem o livro, Abramo admite ser jornalista, mas diz que gostava mesmo é de marcenaria e que a ética dele como marceneiro era a mesma do jornalista. Vale a transcrição:
(>>>) “Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão. Suponho que não se vai esperar que, pelo fato de ser jornalista, o sujeito possa bater carteira e não ir para a cadeia.
Onde entra a ética? O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir. No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outra profissão. É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer coisa. O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista”.
Abramo esperava que nós, jornalistas, tivéssemos opinião política, sem se esconder atrás do biombo de uma suposta objetividade. Deveríamos ser céticos e não ingênuos. Mas sem ilusões:
“O jornalismo é um meio de ganhar a vida, um trabalho como outro qualquer, é uma maneira de viver, não é nenhuma cruzada. E por isso você faz um acordo consigo mesmo: o jornal não é seu, é do dono. Está subentendido que vai trabalhar de acordo com a norma determinada pelo dono do jornal, de acordo com as ideias do dono do jornal. É como um médico que atende um paciente. Esse médico pode ser fascista e o paciente comunista, mas ele deve atender do mesmo jeito. E vice-versa. Assim, o totalitário fascista não pode propor no jornal o fim da democracia nem entrevistar alguém e pedir: “O senhor não quer dizer uma palavrinha contra a democracia?”; da mesma forma que o revolucionário de esquerda não pode propor o fim da propriedade privada dos meios de produção. Para trabalhar em jornal é preciso fazer um armistício consigo próprio”.
Depois de valorizar o papel da reportagem e de reclamar que os repórteres fossem mais fundo na contextualização dos fatos, Claudio demonstrou que a chamada objetividade, que via como optada pela empresa e cooptada pelo jornalista.Nem mesmo a interpretação era aceita em muitos casos - em parte por ser muito próxima da opinião, dizia Abramo.
TV EDUCATIVA
DEPARTAMENTO DE PESQUISA DO JORNAL DO BRASIL
PRIMEIROS JORNAIS – DIÁRIO DO VINTÉM, CORREIO BRAZILIENSE, JORNAL ÁULICO
CARLOS CASTELO BRANCO
SAMUEL WAINER
COMPROMISSO COM OS FATOS – NOTÍCIAS POPULARES, FAKE NEWS
ENTRETENIMENTO – INTERNET, FOFOCA
REVISTA CARAS
REVISTA IMPRENSA educação midiática ou oportunidade de mercado
Revista Realidade
Bondinho
Revista senhor
JORNAL DO NORTE
JORNAL DO POVO PIRACICABANO
REVISTA RADAR
DEADLINE
CHAT GPT
Jornal de debates
Em resumo, embora o uso educativo do jornalismo seja uma ideia boa, a história dos jornais brasileiros e de outros países mostra que nem sempre esse foi um dos objetivos. Muitas vezes, o jornalismo foi usado como uma ferramenta de propaganda política ou para atender interesses comerciais, deixando de lado a responsabilidade de educar a população.
Cite alguns exemplos de publicações brasileiras do passado que valorizaram a cultura e o conhecimento, por favor, dentro dessa mesma lógica utilizada no texto acima.
Embora a educação e a informação não tenham sido sempre o objetivo principal dos jornais brasileiros, alguns exemplos podem ser citados de publicações que valorizaram a cultura e o conhecimento.
Um exemplo é o Jornal do Commercio, fundado em 1827, que se dedicou a divulgar informações comerciais, econômicas e políticas, mas também deu espaço para a literatura, a arte e a cultura em geral. O jornal publicou obras de grandes escritores brasileiros, como Machado de Assis e Euclides da Cunha, e também realizou campanhas em prol da educação, como a luta pela criação da Universidade de São Paulo.
Outro exemplo é o Correio Paulistano, fundado em 1854, que teve uma seção de cultura e literatura que contou com a colaboração de importantes escritores brasileiros, como Monteiro Lobato e Mário de Andrade. O jornal também se destacou por sua cobertura jornalística de eventos culturais, como exposições de arte e espetáculos teatrais.
A Revista Brasileira, fundada em 1856, foi uma das primeiras publicações a valorizar a cultura e o conhecimento no país. Dirigida pelo escritor Joaquim Manuel de Macedo, a revista publicava artigos sobre literatura, história, ciência e filosofia, além de colaborações de importantes escritores da época.
Outro exemplo é a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundada em 1838, que se dedica à pesquisa e difusão da história e da cultura brasileiras. A publicação é conhecida por seus estudos e ensaios sobre a história do Brasil, além de manter uma biblioteca especializada em história e cultura brasileiras.
Esses são apenas alguns exemplos de publicações que valorizaram a cultura e o conhecimento no Brasil. Apesar de não terem sido o objetivo principal dos jornais brasileiros, há registros de iniciativas que buscaram educar a população e disseminar conhecimento, contribuindo para a formação de uma sociedade mais informada e crítica.
O que você pode dizer sobre a revista Senhor, publicação marcante da imprensa brasileira?
A revista Senhor foi uma publicação de grande importância na imprensa brasileira, tendo sido lançada em 1959 e circulado até 1964. Dirigida pelo jornalista e escritor Otto Lara Resende, a revista teve como objetivo trazer uma abordagem mais sofisticada e culturalmente rica ao jornalismo brasileiro, em um momento em que a imprensa nacional ainda era predominantemente voltada para a cobertura política e econômica.
A revista Senhor abriu espaço para a literatura, a arte, a moda, a música e outros aspectos da cultura brasileira, trazendo ensaios, entrevistas e reportagens que abordavam esses temas de maneira aprofundada e criativa. Além disso, a revista contou com a colaboração de importantes escritores e intelectuais brasileiros, como Clarice Lispector, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.
A publicação também teve uma atuação política relevante, especialmente em relação à defesa da democracia e dos direitos humanos. Em 1964, com o golpe militar no Brasil, a revista Senhor foi censurada e acabou por encerrar sua circulação.
A revista Senhor é lembrada até hoje como uma publicação marcante na história do jornalismo brasileiro, que abriu caminho para um jornalismo mais cultural e sofisticado, além de ter se posicionado de maneira corajosa em relação aos grandes temas políticos e sociais de sua época.
Infelizmente, a imprensa brasileira também conta com exemplos de publicações que se apoiaram em falsidades e inverdades ao longo de sua história. Alguns desses exemplos são:
Notícias Populares: Esse foi um jornal popular brasileiro que circulou entre 1963 e 2001. O jornal ficou conhecido por suas manchetes sensacionalistas e muitas vezes exageradas, que exploravam crimes, tragédias e escândalos de maneira sensacionalista. O jornal também foi acusado de publicar notícias falsas e manipuladas para aumentar sua circulação e audiência.
O Cruzeiro: Essa foi uma das mais importantes revistas brasileiras do século XX, tendo circulado entre 1928 e 1985. Apesar de ter tido uma atuação importante na divulgação de temas culturais e políticos relevantes, a revista também foi criticada por suas reportagens sensacionalistas e manipuladas, além de ter sido acusada de publicar notícias falsas. Em 1964, a revista apoiou o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, o que também gerou críticas e controvérsias.
A Última Hora: Esse foi um jornal criado pelo jornalista Samuel Wainer, que circulou entre 1951 e 1971. O jornal foi acusado de ter recebido dinheiro do governo de Getúlio Vargas para fazer propaganda em seu favor, além de ter publicado notícias falsas e manipuladas para aumentar sua circulação e influência política.
Esses são apenas alguns exemplos de publicações brasileiras que se apoiaram em falsidades e inverdades ao longo de sua história. Infelizmente, a imprensa nem sempre cumpre o seu papel de informar com imparcialidade e ética, o que pode ter graves consequências para a sociedade e a democracia.
O início da imprensa no Brasil remonta ao final do século XVIII e início do século XIX, período em que surgiram os primeiros jornais no país. Esses jornais eram muito diferentes do que conhecemos hoje em dia, tanto em termos de formato quanto de conteúdo.
O primeiro jornal brasileiro foi o Correio Braziliense, editado em Londres pelo jornalista Hipólito José da Costa. Sua primeira edição foi publicada em 1º de junho de 1808, e tinha como propósito político defender as relações da colônia com o Reino Unido. O Correio Braziliense foi uma importante fonte de informação para os brasileiros durante o período em que Portugal estava sob o domínio de Napoleão Bonaparte, e teve uma grande influência na formação da opinião pública brasileira.
No entanto, o Correio Braziliense não era um jornal comum, pois sua aparência era mais parecida com a de um livro do que com a de um jornal moderno. As edições eram compostas de diversos textos, que abordavam desde assuntos políticos e econômicos até literatura e poesia. Além disso, o jornal era impresso em papel de alta qualidade e tinha uma apresentação cuidadosa, o que contribuía para sua imagem de sofisticação e seriedade.
Por outro lado, Diferentemente do Correio Braziliense, a Gazeta do Rio de Janeiro era um jornal com uma aparência mais próxima do que conhecemos hoje em dia, com uma diagramação mais simples e mais notícias.
Foi apenas em 1821 que surgiu no Brasil um jornal que tinha como propósito principal a divulgação de informações para a população em geral. Esse jornal ficou conhecido como Diário do Rio de Janeiro, ou simplesmente Diário do Vintém, e era um jornal diário que circulava pela cidade do Rio de Janeiro. O Diário do Vintém foi o primeiro jornal brasileiro a ter uma circulação regular e a divulgar notícias de interesse geral, tais como informações sobre o comércio, a política e a sociedade.
Em resumo, os primeiros jornais no Brasil eram muito diferentes do que conhecemos hoje em dia, tanto em termos de formato quanto de conteúdo. Enquanto o Correio Braziliense tinha um propósito político específico e uma aparência de livro, a Gazeta do Rio de Janeiro era a voz oficial do império português. Somente em 1821 surgiria um jornal que tinha como objetivo principal a divulgação de informações para a população em geral, e que foi o precursor do jornalismo moderno no Brasil.
A consolidação da tipografia no Brasil se daria já nos primeiros anos do reinado joanino (1808-1815). Em 1811, nascia na Bahia o jornal Idade d’Ouro, folha que só teve licença real após seu redator (o negociante português Manuel Antônio da Silva Serva) garantir à monarquia que o periódico não prejudicaria a publicação da Gazeta do Rio de Janeiro. Dois anos depois, era a vez de o Rio de Janeiro ter O Patriota (1813-1814), primeiro jornal brasileiro de caráter científico com artigos analíticos sobre temas de arte, ciência, letras e cultura. Saído dos prelos da Impressão Régia, esse empreendimento cultural foi idealizado por Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, então redator da Gazeta do Rio de Janeiro, e contou com o apoio da elite ilustrada da corte, para que seu projeto ilustrado circulasse nos dois lados do Atlântico. Ainda nesse período e também subsidiado pela Coroa portuguesa, emergiria O Investigador Portuguez em Inglaterra (1811), cuja principal função era combater as ideias de Hipólito da Costa, periodista que impulsionou transformações decisivas na redefinição do papel da imprensa ao longo da governança de d. João no Brasil (1808-1821). Em solo inglês, os dois periódicos debateriam questões centrais para a manutenção e sobrevivência da monarquia lusitana diante da crise do Antigo Regime: da defesa dos ideais políticos liberais à importância da educação pública, o novo conceito de progresso, advindo das Luzes.
A imprensa luso-brasileira “na emigração” ganhava novos atores: em Londres, nascia O Portuguez (1814), de Bernardo da Rocha Loureiro, e O Campeão Portuguez (1821), de José Liberato de Carvalho. Em Paris, surgia o Observador Lusitano em Paris (1815), de Francisco Solano Constâncio, também redator dos Annaes das Sciências, das Artes e das Letras, publicação que circulou entre 1818 e 1822 nos dois lados do Atlântico. Os três jornalistas, assim como Hipólito da Costa, compunham a seleta órbita da elite ilustrada luso-brasileira.
Ao longo de todo o período joanino, a circulação, leitura, tradução e edição de documentos públicos e folhas impressas de natureza europeia e norte-americana foi uma atividade constante, sendo parte fundamental da política cultural da Coroa lusitana voltada para os impressos. Jornais ingleses, como Courier, The Times, The Morning Chronicle; franceses, a exemplo do Jornal Universal, ou, ainda, americanos, como o Federal Gazette, eram constantemente traduzidos, editados e publicados na Gazeta do Rio de Janeiro. Apesar desse intenso diálogo, a política cultural do governo joanino tinha características sui generis: seja através da liberdade de imprensa que vigorava em Londres, seja em meio ao sistema de censura vigente no Império português, a produção da palavra impressa veiculada nos jornais luso-brasileiros esteve intimamente associada às relações políticas e diplomáticas da Coroa portuguesa com as nações europeias, principalmente França e Inglaterra. Além disso, as discussões públicas de temas caros à formação da opinião pública ao longo daqueles anos mostraram como a condução da pena desses homens de letras tinha uma missão comum: o debate acerca dos melhores caminhos para que a sociedade civil luso-brasileira fosse instruída e educada com base na concepção de progresso da época, cujo sentido era intrínseco ao adiantamento em proveito das artes e ciências, dois campos do saber ainda tão interdependentes e vinculados à força do pragmatismo pedagógico.
Entre 1817 e 1820, período de agravamento da crise do Antigo Regime português, a imprensa luso-brasileira delineava, pouco a pouco, novas feições que apareciam com maior nitidez a partir da Revolução do Porto, em 1820, e, sobretudo, em 1821-1822. Como já demonstrou a historiadora Lúcia M. B. Neves, com a Revolução do Porto a sustentação da rígida postura da Coroa portuguesa para com os impressos transformou-se significativamente. A partir de então, ocorreu uma “ruptura nessa sistemática, com os primeiros ensaios de uma relativa liberdade de imprensa”. Dentre as muitas reivindicações, os revolucionários portugueses exigiam a liberdade de imprensa e o fim da censura, pois afirmavam que a liberdade de expressão era um direito inato.
A discussão pública sobre a redefinição da estrutura política do reino ecoou de múltiplas formas nos dois lados do Atlântico, fosse por meio da documentação oficial de diversas naturezas ou dos usos e discursos da imprensa sobre os acontecimentos. Tais transformações perpassaram as páginas da imprensa luso-brasileira da época, marcando o tom ideologicamente circunscrito e politicamente inflamado fosse a favor ou contra as mudanças em curso. Foi nesse contexto, portanto que, em 28 de agosto de 1821, veiculou-se um aviso real assinado pelo príncipe regente que decretava extinta a censura prévia no Brasil. Dizia o documento:
Tomando S. A. Real em consideração o quanto é injusto que, depois do que acha regulado pelas Cortes Gerais Extraordinárias da Nação Portuguesa sobre a liberdade de imprensa, encontrem os autores ou editores inesperados estorvos à publicação dos escritos que pretendem imprimir. É o mesmo Senhor servido mandar que se não embarace pôr pretexto algum a impressão que se quiser fazer de qualquer escrito, devendo unicamente servir de regra o que as mesmas cortes têm determinado sobre este objeto.
Dessa data em diante, sobretudo no biênio 1821-1822, surgiriam no Brasil numerosos panfletos e jornais que colocavam a público, questões de caráter eminentemente político por meio das quais emergiam conceitos importantes como a ideia de opinião pública. Os documentos selecionados para o tema “Imprensa, jornais e pasquins” concentram-se em diversas coleções e fundos, tais como Série Guerra, Negócios de Portugal e Série Interior, Confederação do Equador, Cisplatina, Série Relações Exteriores, entre outros. Para os documentos referentes ao período joanino temos à disposição várias cartas de homens da imprensa assim como dos governadores do reino para os ministros reais como d. Rodrigo de Souza Coutinho e Tomás Antônio Vilanova Portugal, ou mesmo d. João, que corroboram para a pesquisa acerca das bases da política cultural do governo no Brasil. As temáticas são múltiplas. Despachos oficiais que atestam o perigo da leitura de folhetos considerados sediciosos espalhados no reino, entre os anos da invasão francesa, a entrada de impressos estrangeiros europeus e americanos de teor político no Brasil (sobretudo durante as guerras napoleônicas), a censura de folhas críticas ao governo, como no caso do Correio Braziliense, assim como as negociações sobre a escrita jornalística de O Investigador Portuguez em Inglaterra ou Jornal Literário, Político, Etc, financiado pelo governo português então no Rio de Janeiro, que visava combater os ideais do Correio Braziliense. A estruturação dessa nova ordem tipográfica no Brasil (como a carta do conde de Aguiar para d. João VI, agradecendo a concessão de uso de uma tipografia na Bahia, de 1811), a preocupação dos governadores do reino com o teor opinativo do redator da Gazeta de Lisboa, em 1817, a leitura e subscrição de gazetas nacionais e estrangeiras no reino, já em 1819, a produção de folhetos críticos à monarquia no Pará e a política governamental para suspender circulação também são temas presentes. Todos esses documentos colocam em evidência as negociações da Coroa para os sentidos da governação joanina no que concerne à especificidade da produção e circulação de notícias e ideias no raiar do século XIX. Além disso, também são fontes de grande valia para o estudo das relações políticas tecidas ao longo do período entre a monarquia portuguesa e o Velho Mundo assim como com as colônias independentes da América Espanhola, mormente nas questões de delimitação de fronteira.O fundo denominado Confederação do Equador (1823-1826), referente ao projeto político separatista e republicano ocorrida durante o reinado de d. Pedro I é amplo e, dialoga sobremaneira, com as transformações políticas vivenciadas na arena pública no final do período joanino. Neste fundo, encontramos uma ampla gama de exemplares de jornais de grande importância no debate público e na condução das transformações políticas do período, como o Correio do Porto, Sentinela da Liberdade, doze exemplares do Diário do governo do Ceará (primeiro jornal da província). As proclamações de revoltosos e documentos oficiais de d. Pedro I também fazem parte da coleção e estão arquivadas juntamente com documentações de personalidades de relevo. Frei Caneca, o presidente provisório da província do Ceará, José Feliz de Azevedo e Sá, o comandante Cochrane, marquês do Maranhão, entre outras, são fontes importantes que balizam as tensas relações políticas entre as províncias revoltosas com um novo projeto político republicano e separatista o poder central. O período demarcado pela administração joanina se justifica pela atuação institucional do governo em estruturar a tipografia no Brasil e, como vimos, aponta para a proliferação de medidas no sentido de melhor consolidá-la, de acordo com a concepção de política cultural para os impressos acima explicitada. A delimitação do próprio tema da imprensa é complexa no que se refere mesmo às fontes do Arquivo Nacional: a consulta ao Roteiro de Fontes sugere o aprofundamento de pesquisas em fundos, nomes e instituições e amplia a periodização, o que demostra a fecundidade do acervo para futuras pesquisas.
