Escola infantil portuguesa investe em liberdade e responsabilidade
PORTUGAL
Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 28 de maio de 2018.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/05/escola-infantil-portuguesa-investe-em-liberdade-e-responsabilidade.shtml
Escola infantil portuguesa investe em liberdade e responsabilidade
São Tomé de Negrelos, a 40 quilômetros do Porto, tem apenas quatro mil habitantes e poucas atrações. No último ano, contudo, a cidadezinha recebeu 1.593 visitantes: 883 de Portugal, 666 do Brasil, sem falar gente da Alemanha, Austrália, Espanha, Itália, Moçambique, Noruega e Reino Unido. Todos tinham como destino um prédio moderno no alto de um morro, que não se destaca como arquitetura. Ali funciona a Escola Básica da Ponte e há 42 anos essa unidade da rede pública de ensino começou a chamar a atenção ao deixar de lado classes, carteiras e séries para adotar um modelo pedagógico centrado na autonomia dos alunos.
Numa sexta-feira de abril, a Folha foi recebida por dois de seus 219 alunos, como acontece com todos os visitantes: o português Martim Pedreira, oito anos e a brasiliense Nina Krivochein, 14 anos. Olhos expressivos e mãos que não sabe bem onde colocar, Martim apela a Nina sempre que empaca na tarefa que asssumiu voluntariamente: descrever sua rotina incomum para uma escola. Quatro livros infantis publicados e um sotaque português ainda sobreposto ao de carioca, ela ajuda o colega e explica que trocou o Brasil por Portugal com os pais, ele artista plástico, ela escritora, justamente para estudar aqui: “Eu não aprendia nada nas outras escolas”.
O roteiro da dupla começa num mural onde se informam as regras do jogo - oito deveres e cinco direitos que os visitantes precisam respeitar. Podemos ser bem recebidos, guiados, observar tudo o que acontece, assistir à assembleia e receber esclarecimentos, se os orientadores educativos tiverem disponibilidade. Para isso, passar rapidamente pelos locais, para não prejudicar outros grupos, preservando a dinâmica dos alunos e professores, portando um crachá no peito e com o som do telemóvel desligado. Em silêncio, podemos quando muito observar o há em murais e paredes. E fotos são proibidas.
Diante de outro mural, a dupla mostra as fichas que eles têm de preencher, a começar pelo Plano do Dia, em que cada um estabelece livremente, suas tarefas em cada jornada. Há ainda o Plano da Quinzena, listas de Acho Bem e Acho Mal, Pesquiso em casa e Eu já sei. Pontualidade ganha bolas verdes, faltas são marcadas em vermelho. Se determinado tema repete-se nos Acho Mal, os professores recorrem a um reforço. Pode ser uma roda de conversa, ou até mesmo uma aula sobre o assunto.
Separados em núcleos de iniciação, consolidação e aprofundamento, os alunos entram as 8h30 e saem às 15h50. Alguns vêm do Porto, de trem – são jovens institucionalizados que o Estado encaminha para a Ponte. Além das disciplinas do currículo regular, há atividades opcionais. Nina joga xadrez, Martim estuda inglês e música. Todos tem um tutor, mas o primeiro apoio é sempre dos colegas. Nina resume a lógica (ou a pedagogia): “Temos que ser muito independentes. Ninguém faz as coisas pela gente.”
Numa porta de vidro, cópias de elogiosas reportagens sobre a Escola, mostram que vaidade existe na instituição. Nos corredores de piso laminado vermelho e cinza e limpeza quase hospitalar, as crianças tentam não correr – umas das regras autoimpostas pelos alunos é justamente essa, corridas só no recreio ou durante a educação física. Mas regras nem sempre dão conta da energia da infância e adolescência e muito menos, da proximidade de uma assembleia incomum, onde haverá um a apresentaçã dos alunos em homenagem ao 25 de Abril, aniversário da revolução militar que acabou com a ditadura em 1974. Os “devagar, miúdos”multiplicam-se.
No núcleo de Iniciação, que Martim frequenta, Miguel, seis anos e Beatriz, cinco mostram mais um mural com as regras locais: não correr, não gritar, não arrastar cadeiras, fazer silêncio.
Cartazes feitos à mão exibem frases do cotidiano com letras ressaltadas em cores diferentes. Algumas poderiam figurar numa cartilha dos século passado – O Antonio encontrou a vaca do Afonso, com os As de outra cor. Outras são mais contemporâneas, como Diogo ouviu uma música de David Carreira (cantor e modelo português), em que o D se destaca.
O criador da Escola da Ponte, José Pacheco nem vive mais em Portugal – está no Brasil há 11 anos. A atual responsável pelo projeto, Ana Moreira, 60 anos, 21 na Ponte, reconhece que a escola atrai alunos diferenciados: os chamados fim de linha, rejeitados por outras instituições de ensino. E celebra os resultados obtidos – nem sempre expressos nas avaliações e provas: “Quando os assistentes sociais que atendiam essas crianças vão à Escola da Ponte para saber de seus meninos, não tem muito interesse no desempenho pedagógico. Perguntam é se eles não tem fugido, se tem ido às aulas. E o comparecimento os surpreende". Um caderno de recados conecta a escola com os pais, representados no conselho de Gestão e de Direção, no momento dirigido por uma mãe.
Adequar os procedimentos não-convencionais da Ponte à burocracia demanda esforço e algum jeitinho de parte a parte. Seis escolas públicas de Portugal já podem ter ter uma gestão flexível do currículo -a Ponte, inclusive. Mas isso não a libera de outras determinações legais.
Paulo Toppa, 45 anos, coordenador pedagógico, explica que a escola jamais teve recursos para avaliar o impacto sobre os que por ali passaram. O romancista Paulo M. Morais, 40 anos, escreveu um livro sobre a escola e dedicou um capítulo aos ex-alunos. Ouviu relatos sobre a dificuldade de estudar novamente numa escola convencional e registrou transformações permanentes em muitos deles: “Todos dizem que as bases que obtiveram acabam por funcionar não só pelo resto do percurso escolar, mas pela vida inteira.
A Ponte não faz só alunos, mas seres humanos, cidadãos. Não se pode medir seus resultados apenas por notas em exames”. Paulo considera que o carinho existente em toda a escola é a peça-chave no sistema. Ele compartilha a sensação que o repórter da Folha teve na curta visita – o romancista frequentou a Ponte durante três meses: a de que apesar (ou além) da autonomia, há uma certa liberdade vigiada sobre os alunos. “A autonomia convive com mecanismos para gerar resultados. A disciplina também nasce da pressão do grupo, já que as regras são os próprios alunos que estabelecem.”
Ana Moreira reconhece que as visitas não percebem quanto esforço há nesse processo: “Autonomia pressupõe responsabilidade. Começa por uma providência simples: pedir a palavra quando quer falar. Ou arrumar o livro, depois de usar.” Paulo Toppa resume o que precede esses volumes perfeitamente arrumados nas prateleiras ou crianças que não disparam pelos corredores: “Isso dá chatice todos os dias. É preciso chamar a atenção muitas vezes.”
A assembleia dos alunos acontece no auditório. Um crucifixo ornamenta a parede atrás do palco e há algumas bandeiras ao lado. A ata anterior é aprovada por maioria, com dez votos contrários e nenhum debate. O assunto principal fora a instalação de um Playstation na TV da biblioteca e ficou registrada an advertência de um professor: que os alunos não deixem de aproveitar o ar livre e as brincadeiras no pátio.
Um teatrinho encenado em meio a exibição de um documentário da TV mostrando um Portugal muito atrasado, no tempo da ditadura, simula uma aula de antigamente – e um “professor” armado de palmatória, distribui chapuletadas e orelhas de burro a rebeldes ou desobedientes.
NO final, a presidente eleita, Lia Vieira, concedeu a palavra aos alunos. As intervenções, sobre o significado do 25 de Abril foram quase idênticas. A tônica: liberdade precisa de responsabilidade e a minha termina onde começa a do outro.
A última fala foi de Ana Moreira, a responsável pela Ponte. Antes de ler um poema, uma advertência: “Não é para aplaudir no final… é para refletir”. O jornal da Escola chama-se Responsabilidade.
