erros ai

Paulo Markun

Nos últimos dias, duas das maiores empresas tecnológicas do mundo engalfinharam-se numa batalha que já deu o que falar - e que, provavelmente, ainda vai render muito. Começou cercada por erros.

Quando a Microsoft informou que iria utilizar o ChatGPT da Open Ai (que ela financia) no Bing, seu buscador, a Google revidou com o anúncio de que sua plataforma de pesquisa na internet passará a empregar o LaMDA, abreviação de Language Model for Dialogue Applications, outro chatbot que a empresa está desenvolvendo há tempos.

Nenhuma dessas ferramentas está, até agora, disponível para reles mortais como os colunistas. No Bing, conseguimos nos inscrever numa lista de espera que passou do milhão de candidatos em menos de 48 horas, mas não tem data de atendimento. No campo da Google, o CEO Sundar PIchal apresentou a novidade no dia seis, mas entre os exemplos apontados, afirmou que o telescópio espacial James Webb teria sido o primeiro engenho a tirar uma foto de um planeta fora de nosso próprio sistema solar. Não demorou muito para algum curioso descobrir que isso estava errado (foi o telescópio Kepler quem fez isso em 2010). O erro enunciado em alto e bom som foi acompanhado por uma queda no valor da empresa de 160 bilhões de dólares, ou dezesseis vezes mais que o próprio telescópio. No mesmo dia, a Meta (ex-Facebook) caiu 3% na Nasdaq, sem que tenha cometido qualquer erro em praça pública. E de nada adiantou fazerem a mesma pergunta sobre o telescópio para o Chatgpt e terem colhido o mesmo engano, o estrago estava feito.

É pessoal, o que vale registrar é que nesses primeiros lances do uso massivo da inteligência artificial e de sua popularização – nenhuma engenhoca conseguiu adeptos na velocidade com que o Chatgpt tem obtido – erros são inevitáveis e suas consequências também. Umas mais, outras menos graves.

Parte do problema tem a ver com a pressa de divulgar o que ainda está em teste. Para dar algum contexto, vale lembrar que em junho de 1886 o engenheiro alemão Karl Friedrich Michael Benz apresentou o Benz Patent-Motorwagen, primeiro automóvel movido a gasolina do mundo. Tinha três pneus do tamanho das rodas de uma bicicleta, chassi feito de madeira, apenas um banco e um volante que era, na verdade, uma manivela. O motor era de quatro tempos, como os de hoje, mas com apenas um cavalo de potência e não passava de 16 quilômetros por hora (um cavalo alcança 88). Pouco tempo depois de ir para as ruas, bateu num posto. Karl não desistiu: logo depois, se uniu ao engenheiro alemão Gottlieb Daimler, e fundou a Daimler-Benz, dando origem a Mercedes-Benz.

Especialistas, como o dr. Andrew Rogoyski, do Institute for People-Centred AI da Universidade de Surrey tem tentado acalmar o entusiasmo diante desses mecanismos – embora Bill Gates afirme que eles vão mudar o mundo. “O ChatGPT é um preditor de frases. É um sistema que memorizou um bilhão de livros para poder adivinhar o que vem depois da pergunta que você faz. Tudo o que ele diz é essencialmente uma repetição de algo que já foi dito antes, por um humano. Não é remotamente inteligente. Existem sistemas de IA muito mais inteligentes e úteis que operam robôs, diagnosticam doenças ou dirigem um carro”.

Google e Microsoft são gigantes, mas no campo das buscas, o mercado global de buscas é dominado pela primeira, com uma participação de 91%, de acordo com a empresa de dados de internet SimilarWeb, com o Bing tendo apenas 3%. No último resultado trimestral, a Microsoft registrou receita de US$ 3,2 bilhões em buscas e publicidade em notícias, menos de um décimo do total obtido pelo Google - US$ 42,6 bilhões em receitas de buscas.

Mas o anúncio da integração do Chatgpt no Bing fez com que os downloads do buscador da Microsoft disparasse dez vezes na Apple Store, colocando-o entre os dez mais populares entre todos os aplicativos gratuitos.

De acordo com a Microsoft, cada ponto percentual ganho em participação de mercado – presumivelmente do Google – representa US$ 2 bilhões extras em receita publicitária para a empresa.

Longe dessa grana toda, os colunistas seguem testando o Chatgpt e o GPT3. E também encontraram erros. Repetindo a experiência feita pelo amigo Demi Getschko, um engenheiro eletricista brasileiro, considerado um dos pioneiros da Internet no Brasil e que é o diretor-presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, perguntamos ao ChatGPT qual a citação mais famosa de Macbeth, a personagem de Shakespeare. Na resposta, a máquina disse que a citação mais famosa é ser ou não ser, de Hamlet. Demi corrigiu-a, dizendo que estava confundindo Hamlet com Macbeth e o chat reconheceu o erro e deu nova resposta, agora certa - "Fair is foul, and foul is fair".


Pelo jeito, o ChatGPT não assimilou o engano. Repetimos a pergunta de Demi e recebemos a mesma resposta errada. E quando tentamos perguntar se o chat não aprende com seus erros, havia um excesso de consultas – a Open AI acaba de lançar uma versão paga do aplicativo. Por 20 dólares mensais, promete responder imediatamente. Com erro ou não, a companhia não diz.