Dez conselhos

Paulo Markun

Como se fosse um tsunami noticioso, a inteligência artificial e seu mais recente sucesso, o ChatGPT, tem provocado reações diversas pelo mundo afora. Passou na primeira fase do exame da Ordem dos Advogados do Brasil, disse a um colunista do New York Times quer ser humano e acabou se declarando apaixonado pelo seu interlocutor – e por aí vai.

Diante dessas e de outras, os colunistas arriscam seus palpites e apresentam dez “conselhos”para quem ainda não se aventurou nessa nova estrada – mais de cem milhões de pessoas já tinham feito isso até o final do mês passado.

Como representantes de duas gerações, a de Paulo analógica e a de Pedro, quase nativo digital, já que nasceu em 1896, junto com a internet, fruto da fusão das redes NSFnet e ARPAnet, os conselhos não são os mesmos.

Comecemos pelos de Paulo:

  1. O Chatgpt é surpreendente e fácil de usar, mas, no fim das contas, não passa de um completador de frases. Por enquanto, pode ser experimentado gratuitamente, embora o lançamento recente da versão paga no Brasil tenha transformado os testes não pagos numa espécie de gincana. Ãs vezes funciona, outras avisa que está atolado de serviço. Embora pareça humano, onisciente, todo-poderoso, não faz nada se não for devidamente estimulado. Portanto, não tenha medo e arrisque uma questão ou demanda.

  2. Lembre que o GPT3 e o ChatGPT não estão conectados com a internet e por isso, não navegam bem em temas da atualidade. Confessa que não sabe responder quem é o presidente do Brasil (há alguns dias, seguia informando que era Jair Bolsonaro). Já sobre a Rússia, responde que é Vladimir Putin, eleito em março de 2018, para um mandato de seis anos. Portanto, não se deve esperar dele o melhor desempenho em questões da atualidade. Esse “defeito” pretende diminuir a chance de usar o mecanismo para produzir fake news. Mas nada impede que os abelhudos tentem esse caminho imbecil e perigoso.

  3. Experimente novos usos, territórios que você não domina, jogue em todas as posições. Paulo está se iniciando na linguagem de programação Phyton, tentando criar um programa a ser usado na pesquisa histórica para seu novo livro. Com Pedro e outros aventureiros, esboçou um bestiário do século XXI, em que personagens fantásticos e suas imagens foram desenvolvidos pelo GPT3 e pelo Dall E e aperfeiçoados com o uso do ChatGPT.

  4. Desconfie (sempre) dos resultados. Nesses primórdios dessa tecnologia, errar é mais que humano. Tanto que diante da pergunta quem é Paulo Markun, a resposta do chatGPT foi esta: “Paulo Markun é um jornalista, escritor e produtor cultural brasileiro. Ele nasceu em São Paulo, em 1947, e é formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Ao longo de sua carreira, Paulo Markun trabalhou em diversos veículos de comunicação, incluindo as revistas Veja, IstoÉ e Senhor, o jornal Folha de S.Paulo e a TV Cultura. Ele também foi diretor da Fundação Padre Anchieta, responsável pela administração da TV Cultura e das rádios Cultura FM e Cultura Brasil. Além de sua carreira na mídia, Paulo Markun é autor de diversos livros, entre os quais se destacam "Getúlio", uma biografia do ex-presidente Getúlio Vargas, e "Fim do silêncio", que aborda temas como direitos humanos, democracia e cidadania. Ele também é um dos fundadores do Instituto Vladimir Herzog, que tem como objetivo promover a defesa da democracia, dos direitos humanos e da liberdade de expressão no Brasil”. Para registro, Paulo nasceu em 1952, Getúlio foi escrito por Lira Neto e “O fim do silêncio” é uma obra coletiva que aborda a presença negra na Amazônia. O resto, como diria Tim Maia, o resto vale.

  5. Procure acompanhar a rapidíssima evolução dos chatbots – não apenas o da Open Ai, mas os seus concorrentes. Há muita grana envolvida nisso e se até agora, eles não impactaram sua área de conhecimento ou trabalho, espere mais um pouco – e verá. Por isso, vale reproduzir um trechinho do editorial do inglês The Guardian: “Os seres humanos têm um longo histórico de pensamentos positivos e subestimam os riscos de novos avanços. Interesses comerciais impulsionam a tecnologia como uma nova religião cujo artigo de fé central é que mais tecnologia é sempre melhor. Gigantes da web querem deslumbrar os usuários a superestimar a utilidade de suas ferramentas de IA encorajando a humanidade a ceder prematuramente autoridade a eles muito além de sua competência. A atitude empreendedora e a curiosidade científica produziram muitos dos avanços da era moderna. Mas o progresso não é um princípio ético. O perigo não está em máquinas sendo tratadas como humanos, mas em humanos sendo tratados como máquinas.”