Com peixes mortos, Rio Tejo vive dias de Tietê e preocupa pescadores

PORTUGAL

Paulo Markun

4/1/20182 min read

Matéria publicada na Folha de S.Paulo em abril de 2018.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/04/com-peixes-mortos-rio-tejo-vive-dias-de-tiete-e-preocupa-pescadores.shtml#:~:text=%E2%80%8B%E2%80%8BH%C3%A1%2016%20anos,uma%20cidadezinha%20do%20Alto%20Alentejo.

Com peixes mortos, Rio Tejo vive dias de Tietê e preocupa pescadores

Há 16 anos, Hugo Sabino ganha a vida no rio Tejo. A 200 quilômetros de Lisboa, transporta passageiros dispostos a pagar dois euros para usar a barca do Arneiro, encurtando o caminho até a Santana, uma cidadezinha do Alto Alentejo. Sua escassa clientela tem hora marcada: oito vezes ao dia, quatro nos trens sentido Lisboa/Covilhã, mais quatro na direção oposta. O que não tem aparecido mais para Hugo são peixes. As lampreias, então, que ele adora, simplesmente sumiram. O barqueiro tem uma explicação e solução simples: “a culpa é da Celtejo. Não quero que a empresa feche. Só quero que não mate o rio”.

Pescadores ativos e aposentados da vizinha freguesia de Santana endossam as críticas de Hugo à empresa que fabrica 218 mil toneladas/ano de pasta de celulose na vizinha Vila Velha de Ródão. No Clube Recreativo e Desportivo de Santana, um grupo ouvido pela Folha não hesita em falar mal da Celtejo, tida como a fonte de dos problemas que assolam o Tejo, embora reconheça que a companhia é o grande esteio econômico da região. A aldeia já viveu do Tejo e de seus peixes, como Hugo, mas a realidade mudou nos últimos anos.

Para quem tem na memória as imagens do Tietê ou do Pinheiros, o Tejo que corre bem perto dali não parece tão mal. A água é translúcida, as margens tem vegetação e há até passeios turísticos pelo rio. Mais abaixo, junto ao padrão dos Descobrimentos, pescadores amadores marcam presença diariamente no calçadão construído junto ao rio e ali conquistam suas tainhas.

Mas no final de janeiro, um manto de espuma branca e consistente espuma tomou conta do rio perto de Vila Nova de Ródão. Alertada pelos ambientalistas, a imprensa portuguesa foi até lá e diante do noticiário intenso, o governo reagiu mobilizando caminhões e trabalhadores para removerem a espuma, que foi levada para uma estação de tratamento de esgotos. Fez mais: reduziu a produção da Celtejo em 50%, primeiro por dez dias, depois por mais um mês. Ainda persiste um diminuição de 30%.

Otávio Paiva de Rosa, 77 anos, vive da aposentadoria, depois de ter pescado a vida toda no Tejo. Ele diz que moradores de pequenas aldeias, como Santana não podiam falar mal da Celtejo, mas que o noticiário recente enterrou qualquer temor.

Ove anos