Aldeias que desaparecem em Portugal buscam turismo como única salvação
PORTUGAL
Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 30 de abril de 2018.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/04/aldeias-que-desaparecem-em-portugal-buscam-turismo-como-unica-salvacao.shtml
Aldeias que desaparecem em Portugal buscam turismo como única salvação
Há dois anos, a representação portuguesa da Christie's, corretora internacional voltada para imóveis de luxo, procurou o proprietário de um prédio histórico no centro da cidade do Porto. Na conversa, os representantes perguntaram se ele não sabia de outro imóvel na região com uma vocação ecológica. Médico e empreendedor, Victor Brandão, 63 anos, tinha a resposta: um terreno de quase 20 hectares de topografia muito íngreme, recortada por muros de pedra erguidos há séculos com onze casas de xisto em ruínas, que ele comprara há quase dez anos.
A aldeia da Emproa chegou a abrigar 14 famílias e a fornecer carne, milho e legumes para outras localidades. No ano 2000, uma visita profissional levou Victor até lá e ele demonstrou interesse em comprar o lugar, quando o último morador morresse. Dito e feito. “Minha ideia era fazer um empreendimento de turismo, com uma ligação com a aldeia vizinha, de Curvelo de Paivó, onde restaurei seis casas para transformar em alojamento local. Mas percebi que é um investimento muito elevado para meus recursos e em vez de fazer a conta-gotas, resolvi colocar a aldeia à venda”.
O médico quer 600 mil euros pela propriedade – pouco mais de 2,4 milhões de reais – mas se alguém comprar, terá de investir muito mais para transformar a antiga aldeia num espaço turístico. Algum dinheiro já foi gasto na restauração parcial de duas casas e na melhoria do acesso, mas quando a reportagem da Folha esteve lá, só um carro com tração nas quatro rodas venceu o declive, superado por curvas radicais que exigem boas manobras.
O caso da Emproa ilustra um fenômeno presente em todo o interior do país: a desertificação das localidades menores. Há pelo menos outras quatro aldeias à venda no país que oferece cidadania a quem tiver meio milhão de euros para aplicar em imóveis, benefício agora contestado no âmbito da União Europeia, como já informado pela Folha.
Pela lei portuguesa, para um local tornar-se vila precisa ter mais de três mil eleitores e alguns equipamentos coletivos como posto médico, farmácia, centro cultural, correios, comércio. Abaixo disso é aldeia.
O êxodo dos mais jovens e a dificuldade de manter a produção agrícola em pequena escala agravaram-se com os incêndios florestais de 2017, que deixaram um saldo de mais de 440 mil hectares de florestas devastadas e uma centena de mortes – cinco vezes mais que a média dos dez anos anteriores. Aqui e acolá, contudo, sonhadores, empreendedores e visionários buscam reverter o processo. Mas são raras as aldeias nas mãos de um único proprietário como a Emproa.
Cento e trinta quilômetros mais ao norte, Cubas, a três quilômetros de Valoura, no município de Vila Pouca de Aguiar, Alto Trás-os- Montes, tem uma dúzia de casas, mas apenas dois habitantes: Francisco Costa, 76 anos e sua mulher, Maria da Liberação Alves, oito anos menos. A aldeia já teve 70 moradores e o processo de esvaziamento não está assinalado nas estatísticas oficiais que só contam os moradores da freguesia de Valoura, a que está subordinada. Saíram ou morreram todos até restarem apenas dois casais – e um deles faleceu há pouco tempo. Francisco e a mulher não mudaram muito sua rotina com a perda dos primos, pois não se falavam.
Acordam às sete e dormem às nove da noite. Aposentados, recebem pensões modestas que mesmo somadas, não chegam ao salário mínimo português. Empertigado para um setentão, sorriso de poucos dentes, torcedor do Benfica, Francisco já não vai mais à missa montado em sua égua. Diz que canta sozinho, volta e meia, mas conversar mesmo, só com Maria. Os dois seguem produzindo milho, batata, azeitonas e verduras, graças à frequente e providencial ajuda do filho mais velho, José Manoel, de 50 anos, que vive em Valoura.
Francisco estava em casa com os dois cães, enquanto o filho revolvia a terra com um trator e a mulher manejava um ancinho. Nascido em Frutuoso, a três quilômetros dali, o mais novo de oito irmãos, com sete anos foi viver com outra família que lhe dava “casa, comida, bebida e cacete”. Aos 17, veio para Cubas, trabalhar para outro senhor, tio de Maria, com quem casou. Foi para a tropa e depois para a França, onde passou doze anos. As visitas à mulher renderam seis filhos e estes, 13 netos. Comprou a casa onde vivem de um cunhado. Viu filhos e vizinhos deixarem a aldeia, para trabalhar no exterior, viver em cidades à volta ou preencher uma campa no cemitério. Nunca pensou em partir: “Passarinho que nasce na terra fria por ela sempre pia”.
Quando chega ao campo onde Maria labuta , comenta com o repórter, não sem ironia: “Você vai ver uma cena rara – o homem com a mão no bolso e a mulher trabalhando. Às mulheres, não se poupa.”
O casal só vê movimento no verão, quando recebe a visita dos filhos e algumas casas em volta, já restauradas, também são ocupadas. Todo quatro de dezembro, há festa na capelinha da aldeia, recentemente recuperada.
A grande mudança sonhada para Cubas já custou um bocado de dinheiro para a Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar – 400 mil euros, aplicados no asfalto da estradinha antes intransitável. Investimento que se justifica, não importa o fato de beneficiar apenas dois cidadãos, na visão do tesoureiro da Junta de Freguesia de Valoura, Paulo Santos. “Eles também tem direito”. Aos 46 anos, dono de um táxi e de um café na cidadezinha, foi a ele que o presidente licenciado da Junta, José Diegas, delegou a tarefa de receber repórter e fotógrafo. Paulo só ficou incomodado ao descobrir que seria também o porta-voz da administração: “Não sou bom em falar em público”.
Em dezembro de 2015, a Câmara de Vila Pouca de Aguiar aprovou a transformação da aldeia em área de recuperação urbana. Alguns proprietários reformaram suas casas, mas a coisa complicou - algumas restaurações descumpriram as normas públicas e o caso foi parar na justiça.
O processo é complexo. O envelhecimento da população, a redução da fertilidade e a busca de melhores oportunidades de trabalho levaram os mais jovens de muitas áreas do interior para o litoral, notadamente para duas áreas metropolitanas – Porto e Lisboa. Na segunda metade do século XX, o litoral português passou a crescer parcialmente à custa do interior. Em 2006 nos concelhos de Idanha-a-Nova, Penamacor e Vila Velha de Ródão cerca de metade da população já tinha mais de 65 anos. Dos 278 municípios, cerca de 40% estão abaixo média salaraial nacional e são majoritariamente do interior. Em 2013, mais de metade da percentagem do poder de compra dos portugueses estava concentrado nas áreas metropolitanas e em algumas capitais de distrito.
Em 1991, o governo criou o Programa de Aldeias Históricas. Em cinco anos, restaurou doze aldeias históricas, a maior parte na região da Beira.
Em julho de 2015, nova reação oficial estendeu a 164 municípios o conceito de baixa densidade, privilegiando as localidades nos programas de investimento até 2020. Embora tenham 20% da população do país, receberão 24% dos recursos.
No final do ano passado, alguns presidentes de Câmaras (equivalente a prefeitos), empresários e acadêmicos criaram o Movimento pelo Interior, que está realizando conferências regionais e em junho promete apresentar seis propostas para enfrentar o problema.
No centro do país, um investimento de quase 50 milhões de euros em duas décadas deu origem à rede Aldeias do Xisto, 27 comunidades em 16 concelhos que oferecem hoje mais de mil camas – em 45 quintas e casas, nove hotéis, duas pousadas e quatro campings - com uma taxa de ocupação média de 40%, gerando mais de 3,5 milhões de euros anuais de receita. Negócio que Victor Brandão imagina reproduzir, em pequena escala, na propriedade que está à venda:
“O segredo para recuperar as aldeias é muito simples: dinheiro. O que leva as pessoas a esquiar na Suiça? A possibilidade de ter todo o conforto depois de um dia inteiro no meio da neve. Ninguém quer ser atendido por pessoas malcheirosas e mal vestidas. Só com investimento pesado vamos reerguer o campo em Portugal.”
