A escrita entre algoritmos e fantasmas

Paulo Markun

Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 11 de fevereiro de 2026.

O que há nos textos da colunista Natalia Beauty não é a IA substituindo a consciência humana, mas a evolução do ofício. A adoção de recursos que facilitam o fluxo criativo é a libertação do intelecto para o que realmente importa: a ideia

A recente tempestade em copo d’água nesta Folha —com leitores em polvorosa e a ombudsman auditando os "sentimentos" da colunista Natalia Beauty— revela uma curiosa nostalgia pelo esforço manual. Natalia admitiu o óbvio: usa inteligência artificial para estruturar o que pensa.

De repente, parece que a legitimidade de um percurso depende de o caminhante ter feito o trajeto a pé, abrindo picada com os dentes, ou de que o navegante só possa atravessar o oceano se valendo da balsa da expedição Kon-Tiki.

A indignação, contudo, sofre de uma amnésia histórica conveniente. Essa busca pela "pureza" da autoria é um fantasma que nos assombra há séculos. No século 19, o público francês já se chocava ao descobrir que a produtividade oceânica de gigantes como Victor Hugo ou Alexandre Dumas contava com ajudantes de pesquisa e redatores de apoio. Foi ali, inclusive, que nasceu o termo pejorativo (e racista) "nègre littéraire" (o "negro literário") para designar quem escrevia na sombra enquanto o mestre assinava a capa. O escândalo era público, mas o hábito, como vemos, atravessou gerações.

O mundo sempre foi movido por mãos invisíveis de todo tipo de gabarito. Ninguém cancelou John F. Kennedy por causa de Ted Sorensen ("Não pergunte o que seu país pode fazer por você..."), o redator que deu ritmo ao pronunciamento da sua posse. Nem Martin Luther King Jr. perdeu sua aura por ter o brilhante Clarence B. Jones estruturando os rascunhos estratégicos de seus discursos. Ali, a voz era do líder, mas a carpintaria era do técnico.

Eu mesmo já tive meus momentos de escritor-fantasma. No início de 1979, logo após o Carnaval, deixei a redação de um jornal em Piracicaba (SP) para trabalhar com Orestes Quércia. Eleito senador em 1974 na esteira da avalanche de votos no então PMDB, Quércia reconhecia, com honestidade, não ter lá grande intimidade com as teclas da máquina de escrever.

Tenho até hoje, guardado em meu arquivo, o original datilografado do discurso em que ele denunciou a extinção do bipartidarismo: "Prometeram que o bipartidarismo tinha vindo para ficar...". O fôlego político era dele, mas as batidas daquelas teclas foram minhas. Era o encontro de um jornalista recém-chegado de Piracicaba e um senador vindo de Campinas (SP), unindo esforços para colocar ordem no que a urgência democrática exigia e confrontar senadores mais experientes e vividos, como o ex-coronel Jarbas Passarinho.

O que mudou de lá para cá? O suporte. O que existe nos artigos de Natalia —ou nos meus— não é a inteligência artificial substituindo a consciência humana. É a evolução do ofício. Onde antes havia um jornalista e seu teclado mecânico, hoje há um código binário. A adoção de recursos que sistematizam e facilitam o fluxo criativo não é um atalho ético; é, antes de tudo, uma libertação do intelecto para o que realmente importa: a ideia.